Diretor da Educafro quer conversar com Dunga para dizer a ele que negros não gostam de apanhar

Frei David, porém, elogia o técnico por reconhecer que negros são alvo de violência e são perseguidos no Brasil

POR CLAUDIO NOGUEIRA


Frei David Raimundo dos Santos: reunião com Dunga – Leonardo Aversa/17-02-2004

RIO – As declarações do técnico Dunga, da seleção brasileira, de que ele parece ser afrodescendente (negro), de tanto que apanha e que gosta de apanhar — ao comentar as críticas de que tem sido alvo no comando da equipe na Copa América — vêm repercutindo junto a setores da comunidade negra. Diretor do movimento Educafro (Pré-Vestibulares gratuitos para alunos negros e de baixa renda), o frei franciscano David Raimundo dos Santos, quer conversar com o técnico para saber de onde ele tirou a ideia de que afrodescendentes gostam de apanhar.

— Só me preocupa quando ele diz que negros ‘gostam de apanhar’. Tenho plena convicção de que a população afrodescente não gosta disso, e por isso nós lutamos contra o auto de resistência (que teoricamente dá aos policiais o direito de atirar em quem resiste à ordem de prisão) que a polícia usa abusiva e ostensivamene, ferindo a Constituição promulgada em 1988 — comentou ele. — Se o Dunga aceitar, gostaria de conversar com ele e dizer, cara a cara, que o povo negro não gosta de apanhar. A exclusão do povo afrodescendete foi gestada na escravidão e é perpetuada pelo período democrático. Só acho que ele se equivocou ao dizer que o povo negro gosta de apanhar. Gostaria de entender porque ele pensa assim, e se possível gostaria de me reunir com ele para conversar sobre isso.

O religioso, porém, conseguiu ver aspectos positivos nas declarações do técnico. Para ele, o treinador acabou se identificando com o povo negro brasileiro sempre agredido, violentado e perseguido.

— Quero elogiá-lo por falar publicamente que reconhece que o povo negro é violentado e espancado pela polícia e por outros setores da sociedade brasileira, mesmo sem merecer — afirmou o religioso. — Num outro aspecto, quando ele, que é ostensivamente branco, se sente como um afrodescendente por sofrer perseguição, está dando ao público elementos para dizer que na sociedade brasileira, quanto mais afrodescendente, mais se é vítima de perseguições e sofrimentos.

 

FONTE: https://oglobo.globo.com/esportes/diretor-da-educafro-quer-conversar-com-dunga-para-dizer-ele-que-negros-nao-gostam-de-apanhar-16571149#ixzz3eDCYXvaD

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