As letras da música “A Carne”, eternizadas na voz de Elza Soares, retratam um Brasil que até os dias atuais trata o corpo negro como mercadoria. Quando a cantora diz: “a carne mais barata é a carne negra” denuncia a desumanização de pessoas negras que chegam a ser confundidas como objetos de pouco valor, aos quais ocupam majoritariamente os espaços de invisibilidade, opressão e violência. Ao ser objetificado, o corpo negro é visto consequentemente como propriedade da classe média, filha do passado escravocrata. Os escravizados da casa grande de ontem são os agregados dos lares de hoje: a empregada doméstica, o jardineiro, o porteiro, o motorista etc – categorias marcadas pela cor preta ou parda e pelos laços de servilidade que as acompanham. Nesse contexto​, ​a recente morte de Ana Maria Gonçalves moradora de Miguel Pereira -RJ, ​empregada doméstica, vítima do COVID-19, evidencia a mesma problemática narrada por Elza Soares: o genocídio de corpos sem valor.

Ao retornar recentemente da Itália, país com maior número de mortes causadas pelo coronavírus, a empregadora sabia que havia possibilidade de estar infectada pelo COVID-19. A despeito disso, não dispensou Ana Maria Gonçalves de seu isolamento. Alguns dias depois, a empregada doméstica morre devido a contaminação pela patroa. Afinal, assim como no tempo colonial: se morrer, compra outro (a). A vítima da negligência às normas sanitárias de isolamento pela empregadora não era vista como ser humano, mas como propriedade. Foi vítima também desumanização histórica de profissionais do lar. Esse caso, se repete no Brasil afora como destacam as notícias sobre contaminação ​comunitária​.

Em contraponto à história brasileira, no restante da América, escravos eram acessíveis apenas à elite real, aos grandes latifundiários, aos membros da corte ou aos donos de grandes negócios – não a uma pequena classe média. Em vista disso, na Argentina a regulamentação do trabalho doméstico se deu em 1972, muitos anos antes do Brasil instituir a ​Lei Complementar 150 de junho de 2015​, que assegura novos direitos aos trabalhadores da categoria. A regulação deste trabalho nos EUA, garante que o salário mínimo de um profissional doméstico seja 20% superior ao mínimo de US$ 7,50 a hora. Último país a regulamentar a profissão de empregado doméstico​, ​o Brasil está longe de garantir dignidade à categoria dado que dos 6 milhões de profissionais, 4 milhões aproximadamente trabalham na informalidade, segundo dados recentes do IBGE.

Base da pirâmide social, as mulheres negras são a maioria que compõe essa estatística e são, portanto, as mais vulneráveis nesta crise sanitária. Neste sentido, sob a ótica da ”cordialidade” da família classe média brasileira, descrita e sintetizada por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, destaca-se a passivo-agressividade travestida de bondade: ao mesmo tempo que ela diz considerar, especialmente essas mulheres, como “parte da família”, não lhes concede direitos expressos na lei. Apesar de parecer contraditório, condiz perfeitamente com os resquícios da escravidão: qual outro profissional é considerado da família pelo empregador? A ideia de família serve para retirar o caráter impessoal do trabalho sucumbindo o profissionalismo da atividade pela não garantia de direitos básicos.

Combinado a tal cenário, a crise econômica que atingiu o Brasil de 2015 a 2017, agravou a precarização do trabalho desses profissionais uma vez que neste período aflora o fenômeno de ​uberização da economia, o qual dar maior espaço às atividades desreguladas pela CLT. Trabalhos análogos è escravidão também se torna mais frequente no noticiário – vale relembrar da ​trabalhadora doméstica que, desempregada e há três dias sem comer, oferece faxina em troca comida.

Retomando a música da Elza que retrata o Brasil de sempre: racista e genocida com a população negra e pobre (“​A carne mais barata do mercado é a carne negra; Só-só cego não vê; Que vai de graça pro presídio; E para debaixo do plástico ; E vai de graça pro subemprego; E pros hospitais….”), não podemos esquecer do trecho que ela canta ser necessário continuarmos lutando, brigando – “[…] brigar sutilmente por respeito/ brigar bravamente por respeito/ brigar por justiça”. ​Com isso é importante, especialmente nesta crise, a negritude reforçar sua humanidade e brigar pelo direito de não morrer vítima de uma doença altamente contagiosa por parte negligência de setores da sociedade que não enxergam valor em corpos negros.

Andreza da Silva Pereira da Conceição é Graduanda em Economia na FEA USP, e membro do Coletivo Carolina Maria de Jesus da FEA USP

Paulo Victor Bento Honorio é Graduando em Administração na FEA USP, e Voluntário no setor de Políticas Públicas da Educafro.