Qual foi a perda econômica para a população preta e parda do Brasil nesse
período pandêmico?

 

 Ao analisarmos o noticiário, algumas pesquisas e o que informam as falas de autoridades, quando o assunto é saúde pública, do início da pandemia até aqui, podemos ter uma dimensão do quanto a população afro-brasileira teve em perdas nesse período pandêmico. Nesse resumo do que foi apurado, veremos que o racismo estrutural existente na sociedade brasileira escancarou as diferenças nas questões habitacionais e, consequentemente, no desenvolver de doenças, além de mostrar a disparidade de renda e empregos entre brancos e negros (aqui, trataremos negros como a soma de pretos + pardos).

Fruto do racismo estrutural, a segregação residencial, é o que determina que as pessoas negras, em sua maioria, residam nas periferias ou em favelas por conta da sua classe social (MARTINS, 2020). E, a partir desse ponto, devemos considerar, também, que as condições em que as pessoas vivem, aprendem, trabalham e se divertem contribuem para a sua saúde. Essas condições, com o tempo, levam a diferentes tipos de riscos, necessidades e resultados para a saúde (ALKIRE; FOSTER, 2019). Portanto, cabe concluir que, por meio dessas condições residenciais, negros sofrem mais com a falta de acesso ao saneamento básico e à nutrição adequada conforme defendido pelo professor da FGV, Thiago Amparo (LIMA et al., 2020) e também por Emanuelle Góes, doutora em saúde pública pela UFBA e pesquisadora do Cidacs/Fiocruz sobre desigualdades raciais e acesso a serviços de saúde (GRAGNANI, 2020), onde Góes acrescenta a “baixa oferta de serviço de saúde” para a população periférica. Essas condições contribuem para que essa população negra possua um número mais expressivo de casos de hipertensão e diabetes, por exemplo. Logo, percebemos que as condições habitacionais interferem na saúde da população negra.

Quanto aos empregos e por consequência a renda, a população ocupada de negros em ocupações informais é de 47,3% quando comparado a brancos, 34,6%, segundo dados do PNAD (IBGE, 2019a). Esses mesmos dados informam que nas diferenças entre as famílias negras e brancas, os brancos ganham 73,9% a mais do que os negros e que os homens ganham, em média, 27,1% a mais do que as mulheres. O médico sanitarista e professor de saúde pública da USP Gonzalo Vecina Neto acrescenta que: “Quem mora na periferia em grande medida faz parte do mercado de trabalho informal, portanto ganha o dinheiro do dia para comer a comida do dia. Se o sujeito não sair todo dia para ganhar alguma coisa para levar dinheiro para casa, vai ter fome na casa dele”. Portanto, desde o início da pandemia, essa população periférica e majoritariamente negra não pôde manter seu isolamento social devido, principalmente, às suas condições de aquisição de renda, que é retirada, em maior parte, de trabalhos informais diários. Logo, a baixa adesão ao isolamento social dessa população contribuiu para que esses estivessem mais propensos a serem infectados pelo vírus.

Portanto, considerando que o racismo estrutural serviu de base para a questão habitacional e a ocupação, majoritariamente, informal da população negra e que esses dois quesitos servem para que negros estejam mais propensos a serem infectados, alguns grupos de pesquisadores conseguiram fazer estudos sobre a quantidade de morte de negros em comparação ao de brancos, mesmo com as inconsistências dos levantamentos feitos pelos órgãos de controle na área da saúde em governos e municípios. O Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS) informou que as chances de um branco se recuperar da covid-19 é de 62% e a dos negros é de 45%. Ou seja, a chance de um negro morrer por coronavírus é 38% maior do que a de um branco com a doença.

Por fim, especialista afirmam que o desemprego durante a pandemia afetou mais as ocupações onde os negros são maioria (MARCHESAN, 2020). No segundo trimestre de 2020, quando a taxa de desemprego estava em 13,3%, negros foram afetados em 33,2% com o desemprego enquanto os brancos foram impactados por 10,4% de acordo com o PNAD (UOL, 2020). Dados da FGV Social com base no PNAD contínua, até o segundo trimestre de 2020, apuram que a renda dos negros sofreu perda de -43,2% enquanto brancos sofreram com -20,1%. Na taxa de participação no mercado negros sofreram com -19,1% enquanto brancos sofreram com -7,2% (MARCHESAN, 2020).

Logo, partindo do racismo estrutural, os negros, durante a pandemia é o grupo que mais vem sofrendo com as contaminações, com as mortes e com as perdas econômicas. Um reflexo desses dados está na primeira vítima fatal da doença no país, Cleonice Gonçalves, de 63 anos. Ela contraiu o vírus de sua patroa, que voltava da Itália para o Rio de Janeiro. Gonçalves era mulher, negra, hipertensa, diabética e empregada doméstica (OLIVEIRA; EVANGELISTA, 2021).

Referências

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